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12. « PINTURA. AUTO-RETRATO » : AI ONDE NÃO ESTOU por Jean-Michel Ribettes – Solo Show, Galeria dos Prazeres, Madeira, September 11- October 31, 2010 – Português





O « COGITO » DE KIMIKO

Desde que ela fugiu de seu país natal para escapar da servidão mortífera e do destino de humilhação reservado às mulheres japonesas, Kimiko Yoshida – através do que se designa por “auto-retratos” – apura e amplifica uma contestação erudita, feminista e distanciada do “estado das coisas”: contra os clichês contemporâneos da sedução, contre a servidão voluntária das mulheres, contra as “identidades” submetidas às filiações e às “comunidades”, contra as estereotipias do gender e os determinismos da hereditariedade.

São conhecidos e facilmente reconhecidos os auto-retratos de Kimiko Yoshida, na maior parte, monocromos – ou quase monocromos. Essas imagens em que predomina uma cor são sua assinatura, tão frequentemente imitada, desde 2001 (a lista dos imitadores cresce de dia para dia…). Quanto a mim, vejo essas imagens quase unicolores como se fossem monocromos fracassados – com pleno conhecimento de que sucesso e fracasso estão estreitamente ligados, se admitimos, na esteira de Freud, que o ato falho é o único ato que pode ser bem-sucedido sem fracasso.

Por essa aspiração à monocromia, por essa busca do inatingido – aí onde se determinam as significações do infinito, do imaterial ou do intangível – é que cada auto-retrato de Kimiko Yoshida se impõe, ao mesmo tempo, como uma emergência e um retraimento.

Aí onde não estou–
na aresta da dupla fenda lacaniana de uma fita de Mœbius, tal é o “cogito” de Kimiko, o “cogito” da divisão subjectiva: pensar aí onde não estou, estar aí onde não penso, não pensar aí onde está o ser, não estar aí onde penso pensar…

PINTURAS: UMA PRÁTICA DO DESVIO

As recentes fotografias intituladas Pinturas. Auto-retratos (2007-2010) são a continuação, com uma amplitude renovada, a série das Casadas que Kimiko Yoshida havia iniciado em 2001 (essa série foi objecto de uma retrospectiva, em 2007, no Centro das Artes-Casa das Mudas, em Madeira).

Essas Pinturas procedem, essencialmente, de uma prática de desvio. Os leitores da revista L’Internationale situationniste (1957-1973) conservam na memória que o termo “desvio ”, reavaliado por Guy Debord, “utiliza-se como abreviatura da fórmula: desvio de elementos estéticos pré-fabricados”. Eis o dado fundamental: “Assim, o desvio revela-se, inicialmente, como a negação do valor da organização anterior da expressão, [como] a busca de uma construção mais ampla, em um nível de referência mais elevado, como uma nova unidade monetária da criação.”

No que lhe diz respeito, Kimiko Yoshida empenha-se, precisamente, em desviar de suas antigas significações: I/ os objectos da vida quotidiana ou da moda; II/ as obras-primas da história da pintura; III/ suas precedentes Casadas; e IV/ a própria prática fotográfica.

PACO RABANNE : DA MODA À PINTURA

I – À semelhança de seus precedentes auto-retratos, as Pinturas de Kimiko Yoshida apresentam-se como uma tentativa (inacabada) em direção à cor monocroma: a artista vê no monocromo uma figura do inatingível, do inesgotável, do infinito – o infinito escoar do tempo, o inesgotável desejo de ver – no qual a figura da artista teria tendência a desaparecer. Mas o que aparece, atualmente, nas Pinturas, é o desvio manifesto da moda. A artista desvia, em particular, criações da alta costura – vestidos, saias e acessórios, calças, sapatos ou bolsas – que ela transforma em toucas “Grand Siècle”, em adereços antigos, em trajes históricos.

A IDENTIFICAÇÃO & A ALTERIDADE

II – Os objectos da vida quotidiana ou os acessórios de moda, os arquivos da alta costura ou os fragmentos da história da arte são desviados de sua significação por essas Pinturas – no total, uma série de 120 obras – apenas com a intenção de transformar as obras de Picasso, Matisse, Gauguin, Rembrandt, Rubens, Delacroix, Tiepolo, Watteau… Essa evocação das obras-primas dos mestres antigos, longe de ser uma citação, uma réplica ou uma imitação, longe de se apoiar na semelhança ou na verossimilhança, na similitude ou na analogia, é a alusão retroactiva ao que permanece, à s vezes, não sabido, na lembrança sob a forma de um traço unário: quando o olhar se prende a uma pintura, a lembrança destaca um elemento arbitrário, uma marca discreta, característica e parcelar, seguindo um movimento de deslocamento, de elisão metonímica, no termo do qual a obra fica restringida a um de seus elementos, reduzida a um acessório ou a um fragmento.

Os leitores do Séminaire (13 de dezembro de 1961) não desconhecem que Jacques Lacan é que isolou a função do traço unário, definindo-o como um “traço distintivo, traço justamente tanto mais distintivo […] quanto mais ele é semelhante, mais ele funciona como suporte da diferença. […] Essa função de alteridade é o que garante à repetição de escapar da identidade”. Da obra-prima antiga, portanto, permanece apenas o pequeno detalhe elementar retirado ao eludir o resto do quadro; ora, essa redução, essa elisão é que condiciona a identificação parcial da Pintura de Kimiko Yoshida a essa alteridade pela qual a obra de arte se distingue e, afinal de contas, se define.

O DÉSVIO DE SEUS PRÓPRIOS AUTO-RETRATOS

III – A história da arte não é a única referência dessas Pinturas: a artista, em seus novos auto-retratos, revisita e desvia, igualmente, seus próprios auto-retratos anteriores. Mediante objectos quotidianos desviados de seu uso e transformados pelo contexto das Pinturas, Kimiko Yoshida recria tal touca ou tal máscara antiga proveniente de coleções de museu, adereços por trás dos quais ela já havia encenado seu próprio desaparecimento.

UMA PINTURA SEM PINTURA

IV – Pinturas: o próprio título evoca directamente a função do desvio. Ou, dito por outras palavras, a palavra “pintura” é, aqui, um equivalente de “desvio”. Esse simples título desvia a realidade material da fotografia, assim como os princípios formais da pintura. Ao elaborar – a partir de seus originais analógicos (filme de diapositivos 6 x 6 cm, filmagem de Hasselblad) ou digitais (filmagem de Olympus E-3 para a série completa realizada em 2010 com os vestidos de alta costura de Paco Rabanne) – impressões digitais de longa conservação em grandes telas (142 x 142 cm), Kimiko Yoshida reduplica o desvio encenado nesses auto-retratos. Desvio de fotografias tiradas em tela e intituladas Pinturas – desvio, portanto, de uma Pintura sem pintura.